Hospital Santa Lúcia foto do Hospital Santa Lúcia



Cirurgia torácica vídeo-assistida

Manoel Ximenes Netto
Jaldo Aguiar Barbosa
Marcos Amorim Piauilino

Quando o cirurgião brasileiro João Martins Castello Branco, do Hospital de Pronto Socorro do Rio de Janeiro, descreveu pela primeira vez em 1946 a pleuroscopia como método diagnóstico e terapêutico no trauma torácico, não imaginava o impulso e o desenvolvimento que esta técnica tomaria quase 50 anos depois (1). Castello Branco não somente usou a pleuroscopia com a finalidade de tratamento, mas ainda usou a autotransfusão do sangue coletado no espaço pleural, o qual era reinfundido após filtração em gase. No total foram sete pacientes. O primeiro foi operado em 1943 e não houve morbidade nem mortalidade e, mais ainda, nenhum foi drenado.

Hans Christian Jacoebeus, do Hospital Serafimerlasarettet de Estocolmo, foi o primeiro a usar o cistoscópio para examinar a cavidade pleural e publicou seus primeiros resultados da toracoscopia na tuberculose em 1910. Aos seus75 casos em 1922, ele adicionou outros 46 de autores diversos, totalizando 121. Outros autores acreditaram no procedimento e séries com 1000 procedimentos ou mais foram publicadas (2). Após este período, houve uma fase intermediária, na qual o interesse pelo método diminuiu, em virtude do surgimento dos antibióticos específicos para tuberculose a qual era a principal indicação para a toracoscopia.

A era moderna da toracoscopia teve início com J. Barry McKerman, utilizando a tecnologia endoscópica para remoção da vesícula por via laparoscópica. A seleção cuidadosa dos pacientes candidatos à Cirurgia Torácica Vídeo -Assistida (CTVA) é um pré-requisito importante no sentido de evitar intervenções cirúrgicas inadequadas, prolongamento do tempo operatório e morbidade perioperatória desnecessária. As limitações na instrumentação, a inviabilidade tática, a visão tridimensional e o controle vascular são fatores que limitam o uso da CTVA. Além destes fatores, não deve ser esquecido que o treinamento regular em cirurgia formal (Torácica e Geral) é indispensável quando da utilização do método toracoscópico, tendo em vista a necessidade de conversão, quando o método falha.

A eficácia da toracoscopia pode ainda ser comprometida nas seguintes circunstâncias:

  1. lesões hilares;
  2. lesões do parenquima pulmonar ocupando o mediastino superior ou a região paravertebral posterior;
  3. lesões cavitárias;
  4. enfisema grave (exceto quando a indicação é o próprio enfisema);
  5. dependência do ventilador;
  6. perda de compliância;
  7. massas parenquimatosas mais profundas e;
  8. aderências pleurais extensas.

As indicações da CTVA podem ser alinhadas como segue:
  1. diagnóstico e tratamento dos derrames pleurais idiopáticos e não diagnosticados pelos métodos habituais;
  2. biópsia pulmonar;
  3. pneumotórax espontâneo recorrente ou complicado;
  4. como alternativa a mediastinotomia anterior;
  5. diagnóstico e tratamento nos nódulos indeterminados menores do que 3 cm;
  6. na avaliação dos tumores de pulmão, cuja indicação cirúrgica é questionada;
  7. nas lesões benignas do esôfago, seja como método auxiliar ou definitivo;
  8. nos derrames pericárdicos;
  9. simpatectomias;
  10. cirurgia do diafragma,;
  11. exposição da coluna torácica nos procedimentos para escoliose e ;
  12. traumatismos torácicos que foi a primeira indicação.

Nos tumores malignos de pulmão, é questionável o uso da CTVA, levando-se em conta a incidência elevada de implantes nos locais de posicionamento das portas de entrada os trocatéres (4). O progresso da cirurgia endoscópica, todavia, ainda está longe de estar concluído. É possível que qualquer procedimento intratorácico venha a ser realizado por via endoscópica à medida em que novas tecnologias e melhor treinamento humano venham acontecer (3).

AVALIAÇÃO PRÉ-OPERATÓRIA

A tomografia computadorizada deve ser feita com muito critério, inclusive para decidir a indicação da CTVA. O processo patológico em si pode influenciar, por exemplo, qual o lado a ser explorado. Assim, nas doenças intersticiais difusas a cavidade pleural direita deveria ser usada, pois permite biópsia nos três lobos pulmonares. Por outro lado, nos nódulos pulmonares, pela maior facilidade de bloqueio do pulmão esquerdo, este lado deveria ser abordado.

A TÉCNICA

O posicionamento do paciente para CTVA não difere em nada com relação aos que vão ser submetidos a uma toracotomia comum, lembrando o uso de coxim posicionado posteriormente para alargar mais espaço intercostal. Usualmente o toracoscópio de 0 ou 30 graus é inserido na linha axilar médio na altura do quinto ou sexto espaço intercostal. Após a comunicação atmosférica com o espaço pleural o pulmão atelectasiado desce na direção do mediastino, salvo no caso de aderências. As demais portas de entrada de forma triangulada, são posicionados de acordo com cada caso ( figura ).

A RECUPERAÇÃO

Não existe dúvida que a CTVA oferece algumas vantagens quando comparada com a cirurgia convencional (usando os afastadores), notadamente a questão dolorosa, a recuperação mais rápida e conseqüente retorno ao trabalho mais precocemente. A parte estética também não pode ser esquecida, levando-se em conta as pequenas incisões da CTVA em relação as toracotomias

AS RECOMENDAÇÕES

A Associação Americana de Cirurgia Torácica e a Sociedade de Cirurgia Torácica estabeleceram um comitê para definir a CTVA e as seguintes recomendações foram feitas:

  1. No sentido de assegurar o melhor cuidado médico possível, a toracoscopia e a Cirurgia Torácica Video-Assistida devem ser realizadas apenas por Cirurgiões Torácicos qualificados através de experiência e treinamento devidamente documentados e capazes de atender aos procedimentos torácicos abertos e suas complicações em potencial. O cirurgião deve ter o julgamento, treinamento adequado e capacidade para proceder imediatamente numa operação normal a céu aberto, se necessário.
  2. É recomendado que as técnicas de CTVA sejam aprendidas através de instrução apropriada.
REFERÊNCIAS
  1. Branco JMC Thoracoscopy as a Method of Exploration in Penetrating Injuries of the Chest Dis Chest 12:330,1946;
  2. Day JC, Chapman PT, O Brien EJ. Closed intrapleural pneumolvsis: Na analvsis of 1000 consecutive operations. J Thorac Surg 17:537.1948;
  3. Lewis RJ.VATS is not Thoracoscopy. Ann Thorac Surg 62:623, 1996;
  4. McCormack P, Bains M, Ginsberg RJ. Role of Video Assisted Thoracic Surgery in the tretment of pulmonary metastases: Results of a Prospective Trial. Ann Thorac Surg 62: 213.1996


Hospital Santa Lúcia
SHLS Quadra 716, conj.C
70.390-700 Brasília-DF - Brasil
Tel: (061) 445 0000

Hospital Santa Lúcia foto do Hospital Santa Lúcia
[Clínicas]
[Saiba sobre]
[Textos científicos]
[Página principal]
[Infra-estrutura]
[Contate-nos]
[Busca]


Estas páginas foram confeccionadas pela
M. Brscan Comunicação - tel. (0XX61) 367 1702