Técnica cirúrgica utiliza enxerto do próprio paciente para tratar câncer ósseo

Pacientes com câncer nos ossos já têm à disposição no Hospital Santa Lúcia uma nova opção de tratamento. Conhecida como frozen autograf, a técnica de enxerto dispensa o uso de próteses e, como novidade, permite o aproveitamento do tecido ósseo do próprio paciente para recompor a parte que estava doente. Além de facilitar a integração do enxerto ao osso normal, o procedimento elimina a necessidade de novas cirurgias, relativamente comuns em pacientes com próteses, especialmente se estiverem em fase de crescimento.

 

 

“Funciona assim: o segmento ósseo acometido pelo tumor é ressecado, tratado com curetagem — espécie de raspagem para retirar o tecido doente — e congelado com nitrogênio líquido a uma temperatura de 196 graus Celsius negativos (-196ºC) para, em seguida, ser reimplantado no paciente”, explica Fabrício Chiesa,* ortopedista oncológico do Hospital Santa Lúcia.

 

 

De acordo com ele, a cirurgia passou a ser utilizada no Japão em 1999 e a publicação de sua técnica e primeiros resultados começou quatro anos depois, em 2003. O procedimento chegou ao Brasil há menos de cinco anos e não se tem notícia de que outra unidade hospitalar do Distrito Federal já o tenha realizado. O congelamento mata as células doentes e sadias, mas a atividade celular no local é retomada pelo organismo em até cerca de seis meses, sem risco de rejeição.

 

 

A técnica cirúrgica também necessita de tratamento com radioterapia e/ou quimioterapia, mas se destaca quando a enxertia óssea é indicada. Outros enxertos demandam insumos de bancos de ossos ou cirurgias mais demoradas, no caso de enxertos vascularizados.

 

 

Ela também tem melhor resultado em longo prazo quando comparada à extração do osso doente para substituição por uma prótese. “As próteses têm um excelente resultado em curto prazo, mas indicação restrita para crianças. Além disso, elas demandam futuras cirurgias de revisão, o que não acontece com a técnica do congelamento”, revela o médico.

 

 

O frozen autograf pode ser utilizado tanto em pacientes com câncer primário, ou seja, originado no próprio osso, quanto naqueles com lesão secundária — metástase causada por uma neoplasia maligna em outra região do corpo que acaba atingindo o osso. A indicação é ainda maior quando o tumor acomete a parte central do osso (diáfise) ou quando as alternativas cirúrgicas não são adequadas.

 

 

O tratamento de um tumor ósseo envolve uma equipe multidisciplinar, com participação de diversos especialistas, como oncologistas clínicos, radiologista, patologista, radioterapeuta e ortopedista especializado em ortopedia oncológica. Além do enxerto com o tecido do próprio paciente, a reconstrução do osso também pode ser feita com próteses e enxertos provenientes de banco de tecidos. Contudo, indivíduos com tumores extensos e sem possibilidade de tratamento conservador podem necessitar de amputações.

 

 

A DOENÇA – O câncer ósseo tem como principal sintoma a dor persistente e com intensidade progressiva, além do aumento de volume no local da neoplasia. O diagnóstico é feito a partir da avaliação da história clínica do paciente, de exames de imagem (raios X, tomografia, ressonância magnética) e da biópsia da lesão. Em algumas situações, o tumor é diagnosticado após o paciente sofrer uma fratura patológica, sem a ocorrência de um trauma, como um acidente.

 

 

Os casos de lesão primária são raros. Cerca de 10 a 20 novas ocorrências são diagnosticadas por ano para cada grupo de 1 milhão de habitantes, com incidência maior na secunda década de vida — entre 10 e 20 anos de idade — e um pico na época do estirão do crescimento. A neoplasia óssea secundária (metástase) é mais comum e costuma acontecer com mais frequência em pacientes acima de 60 anos.

 

 

“Para as neoplasias ósseas primárias, não existem fatores de risco modificáveis, ou seja, que os pacientes possam controlar. Já para as neoplasias secundárias, são muito importantes o diagnóstico e tratamento precoce do local ou locais atingidos por tumores”, alerta Fabrício Chiesa. Entre indivíduos com tumores primários, a taxa de sobrevivência em cinco anos chega a 70%. Já entre os que possuem tumores secundários, ela depende da resposta ao tratamento da neoplasia primária e do grau de acometimento de órgãos vitais.

 

 

* Fabrício Lenzi Chiesa é membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), da  Associação Brasileira de Ortopedia Oncológica (ABOO) e Sociedade Latino Americana de Tumores Músculo Esqueléticos (SLATME). Recentemente, foi palestrante do XX Congresso Brasileiro de Cancerologia, onde explanou sobre o tema “Resseções Conservadoras em Sarcomas na Infância – Alternativas e Indicações”.

13/09/2015
   |   Fonte: Ascom - Grupo Santa

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